31/05/2020

No alvo


O tiro bento no rito sacro
o pagão alvejado, aleluia!
A pistola do senhor não erra
a munição divina não falha

Cada vez mais secular
a religião refaz sua liturgia
baseada em valores mundanos
para que o pastor continue
pastorando as ovelhas
que só servem para dar lã


Cena patética...




11/05/2020

Receita de um país na brasa



  • Pegue a carne de um povo bovino (geralmente é bem barata);
  • Deixe de molho em séculos de descaso, falta de planejamento e má educação;
  • Adicione uma sequência de governos pífios que legislaram em causa própria;
  • Separe a carne em partes, de forma que uma sempre acredite ter mais “razão” do que a outra;
  • Reforce com condimentos aplicados de maneira diversa, para manter a textura desigual;
  • Coloque um pouco de molho de pimenta vermelha;
  • Por conta da laicidade natural, adicione religião de forma desmedida;
  • Retire a ciência;
  • Adicione idolatria às figuras espúrias e culto à ignorância;
  • Besunte com comodismo e desconexão com a realidade;
  • Invente verdades e salpique a gosto;
  • Enrole-a em revoluções e ditaduras;
  • Mantenha sempre a carne à beira do caos;
  • Em caso de pandemia, mais desinformação deve ser adicionada;
  • E por fim é bom a carne já ir ao fogo.

Enquanto a carne assa sobre a brasa, dar uma volta de jet-ski é recomendada. Cuidado para não cair.


Quadro "Primeira Missa no Brasil", de Victor Meirelles (1832 - 1903)




08/05/2020

Sobre mães e paladares



  Mais um dia das mães se aproxima e a programação geralmente é a mesma (para quem pode): ir almoçar na casa da mãe. Relembrar o gostinho da comida da mamãe é sempre bom. Algumas vezes (também para quem ainda pode) essa reunião familiar acontece na casa a vovó, que segundo o dito popular, é mãe duas vezes, porque cria os filhos e depois os netos. E esse encontro de gerações, torna a refeição duas vezes mais saborosa.

 Os pais educam (ou educavam) os filhos de muitas maneiras: ajudam com o dever acadêmico, moldam o caráter no sentido moral, ensinamentos mais peculiares como o musical, trabalhos manuais e artísticos, e formam também o paladar. Há pais que também cozinham, mas no geral são as mães que botam a mão na massa. Principalmente da minha geração, em que um saía para ganhar o pão e outro cuidava do lar.

  Como cresci comendo (e muito) também nas casas dos meus avós, há sabores que aprendi a gostar, como o feijão da minha avó materna e a “marmota” que minha avó paterna fazia. Eu achava tão gostoso o feijão da minha avó materna que comia até os pedaços de cebola, coisa que eu não fazia em casa. Sempre fui chato pra feijão, inclusive. A “marmota” que minha avó paterna fazia era uma delícia! “Marmota” é um bolinho de polvilho doce, em forma de laço, que era frito e depois passado no açúcar ou canela, e era uma festa porque geralmente quando minha avó fazia, estamos vários primos reunidos. Bagunça geral! Minhas avós já se foram e levaram junto esse meu paladar. Já comi muito feijão bem feito, temperadinho e tal, inclusive o da minha mãe, mas um de mastigar a cebola, com gosto, esse se foi. A “marmota”, minhas tias fazem, minha mãe faz, mas... Falta algum toque diferente, um tempo a mais na fritura, um descanso a menos da massa... Não sei o que é, mas se foi também.

 Já a minha mãe faz pratos que considero especiais e que nunca comi melhor por aí: panquecas, almondegas, bolinho de bacalhau e torta de carne (ou frango) são imbatíveis. Uma vez, numa empresa em que trabalhava, fizeram uma vaquinha para comprar os ingredientes da torta de carne e pediram para minha mãe fazer. Ela atendeu o pedido, claro. Na sexta-feira santa, bolinho de bacalhau é imprescindível. Muitas vezes como só o bolinho, e vários! Ela também é muito boa com bolos. Em aniversários ou na hora do café da tarde, sempre há um belo bolo sobre a mesa. Claro que há muita memória afetiva em tudo isso, mas cozinhar também é uma forma de ser carinhoso. E carinho é bom, não é? Carinho enche barriga.

 No começo da minha adolescência o paladar se ampliou: as redes de fast food começaram a fazer parte da vida. Ir ao shopping e comer no McDonald's passou ser o programa principal. Isso no final dos anos 1980, decorrer dos 90. Hoje essas lanchonetes, essas bandeiras de grife, se multiplicaram: do Burger King ao Outback, passando pelo Habib's, Giraffas... Isso sem falar na trash food, os “dogão”, churrasquinho grego, uma “sub-rede” de lanches que, sinceramente, acho até mais gostosa. Tem de tudo um prato, de tudo um preço, para todos os gostos.

 A vida, as obrigações e tecnologia avançaram, o sistema de delivery se aperfeiçoou e vieram os aplicativos, como o Ifood. Somando essa facilidade de pedir comida, com a falta de tempo, cozinhar ficou cada vez mais “trabalhoso”. Sair cedo de casa, trabalhar, estudar, levar filho para a escola, buscar filho no curso (natação, balé...), afazeres do lar e ainda ter que cozinhar? Nem pensar. Com a maioria das pessoas afogadas em rotinas, essas redes de fast food começaram chegar mais cedo à boca das crianças. Isso sem falar em uma série de guloseimas industrializadas. Imagine o quanto isso uniformiza o paladar. Teremos gerações futuras com o paladar formado pela indústria alimentícia e, talvez, elas se “reeduquem” quando adultas. Deve ser triste não ter um carinho gustativo para lembrar.

 Claro que também utilizo os aplicativos para pedir comida, e tem muita coisa gostosa para comer. Mas igual à de casa, da mãe, não tem concorrente que supra o sabor, que vai além da mera degustação. O mais curioso é que existem restaurantes que oferecem a seus clientes a tal “comida caseira”. Só não fornecem a lembrança junto, porque a comida feita em casa leva um tempero que só existe na nossa memória. Está lá gravado, não se cozinha isso. Inclusive no dia das mães vou até a casa dos meus pais para almoçar, não só uma bela refeição, mas também alguma lembrança bem boa. E irei em outras datas porque haverá um dia em que a sexta-feira santa não terá o mesmo sabor. Bom apetite a todos.


AB




01/05/2020

Um delírio de “futurologia”



  Com a quarentena decretada e a aproximação compulsória de casais, a ansiedade acumulada somada a ociosidade, proporciona a esses casais mais oportunidades para copular. Com certeza isso terá impacto direto num futuro índice de natalidade. Não só aqui como no mundo.

   Então está em gestação toda uma geração que será denominada “geração quarentena”, ou “geração Q”.

   E essa geração crescerá ouvindo estórias sobre a praga que foi o coronavírus, que o “Covid 19” foi criado em laboratório, que seus pais foram proibidos de saírem de casa, que fronteiras foram fechadas entre países, que as ruas ficaram vazias, que houve carretas em protesto, que houve desobediência civil, que foram proibidos de trabalhar, que foram proibidos de irem à igreja, que o governo mentiu sobre o número de infectados, que os hospitais estavam lotados, que as UTIs estavam vazias, que muitos morreram, que o presidente dizia ser mentira, que as pessoas saiam nas janelas para baterem panelas, que o governo deu auxílio em dinheiro, que havia briga entre os governos, que tudo era um plano de dominação comunista da China, que faltaram máscaras, que cada um fazia sua máscara, brigas por álcool em gel, empresas fecharam, desemprego, fome... E todas essas estórias terão um viés político.

   Ou seja: a “geração Q” terá tudo para herdar nossa visão bidimensional do mundo, com uma forte dose de maniqueísmo. Somando isso à nossa tradicional “incultura por opção”, essa futura geração terá tudo para ser mais ignorante.

  Veremos também outra face esdrúxula de nossa “tradição”: os nomes bizarros. Com certeza leremos por aí nomes como: “Allquingell”, “Allquingelson”, “Allquelle”, “Allcon”, “Corona” (esse já existe), “Corono”, “Coronelli”, “Coronelson”, “Covid”, “Covidson”, “Allcovidson”, “Allcovid”, “Covidavid”... E por aí vai.

   Quando ver uma barriga grávida, prepare-se, a “geração Q” está por vir.

AB 


NP, clássico jornal popular.