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15/04/2022

Projeto "Somos"


A APCEF/SP (Associação de Pessoas da Caixa Econômica Federal de São Paulo) para comemorar seus 115 anos de existência, lançou no dia 08/04/22 a versão digital do livro “Somos”, e publicaram o meu texto. Para quem quiser a versão digital, é só fazer o download gratuito no link abaixo.

 Sobre o projeto:

“Este projeto nasceu de conversas, da ideia de eternizar o importante trabalho dos empregados da Caixa durante a pandemia. Assim nasceu o projeto “Somos”, um livro no qual os bancários contam como foi trabalhar no único banco público do País em um momento crucial da história do mundo. A pandemia mudou a forma de encarar o trabalho e trouxe muita coisa nova para o dia a dia no banco público. Mas o principal foi o que aconteceu com cada pessoa. O conjunto de acontecimentos traça o que significa este momento único na história da Caixa e da sociedade. ”






    Meu texto foi parcialmente publicado, devido ao limite de caracteres disponível. Mas é possível lê-lo na íntegra aqui abaixo:


Efeito dominó

 

Com certeza ninguém imaginou que um dia passaríamos por uma pandemia. Aliás, a palavra “pandemia” era algo esquecido no dicionário. Mesmo com históricos de epidemias anteriores, como a de gripe espanhola, praticamente há 100 anos atrás, ou a de varíola (1977), que o governo militar tentou esconder, viver algo semelhante estava fora de questão. O avanço da medicina somado ao número de fármacos e vacinas que temos disponíveis, nos dá a sensação de ter certa “segurança sanitária”. Mas depois do ano de 2020, com certeza essa “segurança” se mostrou muito frágil. 

No final do ano de 2019 começaram a pipocar notícias sobre um novo vírus que ataca nosso sistema respiratório, mas acho que pouca gente deu bola para isso. Virou o ano, as notícias sobre o micro-organismo aumentaram, a OMS - Organização Mundial de Saúde entrou em cena, mas, quem se importou? O pior é que o momento foi propício para que o futuro protagonista mundial, o coronavírus, se espalhasse: festas de final de ano, férias, carnaval, turismo a mil por hora. Vale lembrar que o ano de 2020 começou com o então presidente americano Donald Trump ordenando um bombardeio no Irã (Bagdá), que resultou na morte do general Qassem Soleimani... mau presságio? Com certeza!

Logo após o carnaval fui com minha namorada passar férias em Florianópolis/SC. Muita praia, sol, cerveja, porções e nada de pensar em vírus, lógico! Mas quando estávamos para voltar a SP, em meados do mês de março, as notícias sobre uma epidemia que se espalhava muito rápido, e mundialmente, começaram a ser constantes. Daí tudo mudou. Em São Paulo o governador já havia decretado o fechamento de centros culturais, museus, locais públicos e começou a se falar em “medidas restritivas”, fechar o comercio e um tal de lockdown. Em Santa Cataria, a mesma coisa: cidades fechando rodoviárias, praias interditadas, e o espanto da péssima novidade se misturava à insegurança com o futuro. O que poderia acontecer? Quando embarcamos no aeroporto, voltando para São Paulo, o clima era outro, todos os funcionários usavam máscara, que logo se tornaria item de uso obrigatório e indispensável. E o que se achava ser uma epidemia, virou a tal pandemia!

Chegamos na capital paulista e o impensável acontece: fecha-se todo o comércio, decreta-se medidas sanitárias obrigatórias e a preocupação toma conta de todos. Quando retorno ao trabalho no banco (agência Bernardino de Campos/SP) o horário é alterado, passando a funcionar das 08h às 14h, e pouco tempo depois reduziria o fechamento para as 13h. Coincidentemente o primeiro caso de morte por Covid-19 é registrado em SP: um homem de 62 anos que veio a óbito, num hospital que fica a poucos metros da agência. A doença chegou com força e já estava muito próxima.

O governo federal decretou alguns serviços como essenciais ao funcionamento da sociedade, dentre eles o serviço bancário. Na agência em que trabalho há dois caixas, eu e outra funcionária, que foi considerada do “grupo de risco” e teve que aderir ao trabalho remoto. Fiquei sozinho no atendimento de caixa, às vezes ajudado pelo tesoureiro. Em seguida foi implementado o “auxílio emergencial”, que fez as agências da CAIXA lotarem! Ou seja, não fiquei de quarentena, utilizava o transporte público para ir e vir, atendia dezenas de pessoas todos os dias, então ser contaminado seria questão de tempo. Agora, quanto tempo levaria, não havia como saber.

O número de contaminados começou a subir vertiginosamente e, consequentemente, o de mortos. E veio a primeira bomba: um ex-funcionário, que foi gerente PJ em nossa agência, morreu de Covid, aos 37 anos. Lázaro Falcirolli era jovem, casado, dois filhos, havia saído do banco a poucos mais de dois anos, para abrir sua própria empresa. Teve o sonho abreviado. Dias depois, outra bomba: um rapaz que trabalhava como motorista para a proprietária de uma das lotéricas que dávamos suporte, faleceu. Era o Eduardo, um rapaz de pouco mais de 40 anos, às vezes ia até agência, sempre simpático, aparentemente uma pessoa fisicamente forte, porém... O cerco parecia que cada vez mais se fechava: o cunhado do segurança falece; um amigo meu de bairro também se vai; outro amigo é internado e intubado; as notícias sobre internações são constantes. Hospitais de campanha foram improvisados em várias cidades, além da capital, tamanha foi a demanda por leitos. Cada vez mais pessoas eram diagnosticadas com Covid.

Os meses passam, o braço de ferro político-partidário é cada vez mais disputado e nós, meros mortais, ficamos no meio de um tiroteio ideológico raso e improdutivo. Enquanto a ciência mundial corria atrás de uma vacina, métodos paliativos ocupavam a pauta midiática diária da opinião pública, criando discussões inúteis. Nesse meio tempo toda minha família pegou a doença. Meus pais e dois irmãos. Senti muito medo, pois haviam casos de famílias dizimadas em poucos dias, após a infecção. Mas enfim tudo correu bem. Meu pai, de 75 anos, foi que mais teve sintomas. Fez o tratamento em casa, em poucos dias estava bem novamente. Minha namorada também pegou, de forma leve. Perdeu o paladar por alguns dias, depois voltou ao normal. E boa parte da pandemia ficamos sem nos ver, seguindo as restrições, o que não foi fácil. Escrevi até alguns poemas sobre, seguem dois deles:


I

 

Existe um lado meu

que só existe ao lado teu

e o distanciamento involuntário

fez dessa lado um solitário

 

Não há máscara que proteja

dessa obrigatória tristeza

Cativo, no limite da obediência

coexistir é uma dependência

  

II

 

Já perdi as contas

de quantos beijos vou te dar

esse déficit de amor

você há de me pagar

 

E vou te cobrar com juros

fazer juras e cenas

e quero receber em beijos

beijos desses de cinema

 

            Mas a pandemia não dava sinais de trégua.

Quem gosta de ler sobre história, seja ela sobre qualquer civilização que já povoou qualquer região do planeta, vai perceber que todas praticavam algum rito fúnebre. Cada uma a seu modo, de sambaquis a vasos funerários, passando por incinerações, mumificações, todas davam algum destino a seus finados. A pandemia nos privou disso. As prefeituras, pelo menos nos grandes centros urbanos, restringiram os velórios, muitas vezes partindo direto para o sepultamento. Algumas vigílias foram muito rápidas, com o mínimo de gente e com caixão lacrado. Covas foram abertas em série, para tornar o trabalho do coveiro mais dinâmico. Muitos se foram sem o tradicional ritual de despedida. Uma dor a mais para as famílias que perderam entes queridos. Perdi três parentes num espaço de três meses: um tio, uma tia e um primo… o que é mais triste, do mesmo núcleo familiar. Nenhum deles para o Covid, mas também não puderam ser velados. Com certeza vivemos a época mais tristes de nossas vidas, só sendo muito frio e indiferente para não perceber isso.

Mas enfim algo de bom acontece: desenvolve-se algumas vacinas, que começam a ser aplicadas na população, por escalas de idade. Foi um passo na direção certa, apesar de ainda vigorar o “cabo de guerra” ideológico entre os “vacinação já” e os “anti-vacina”. O curioso foi que a maioria dos políticos “anti-vacina” se vacinaram, junto com seus familiares. Pregavam para a população um procedimento denominado “tratamento precoce”, um kit com remédios ineficazes, mas entre eles a vacina foi a regra. Comprou a ideia do kit quem quis, informação não faltou.

Ainda longe de chegar a minha vez na fila, a empresa solicitou aos funcionários que fizessem o exame de sorologia para Covid-19, para verificar quem estava infectado com o vírus, quem esteve e produziu anticorpos e quem não teve contato, que foi o meu caso. Confesso que fiquei surpreso, depois de tanta gente próxima a mim ter pego, de atender inúmeros clientes na agência, de usar transporte público diariamente e de trabalhar numa região onde há dezenas de hospitais, sair ileso era uma questão de sorte... que não duraria muito tempo.

No começo do texto comentei que havia voltado de férias, e logo teria que marcar outra novamente, para não ter que sair de forma compulsória. No final de abril de 2021 saí de férias. O país tentava voltar a “normalidade”, se amparando em medidas sanitárias, vivendo o que foi chamado de “novo normal”, porém era só uma forma de tapar os olhos para a realidade, em meio a muita gente que não tinha outra opção a não ser voltar ao trabalho. O “auxílio” não resolvia a vida da maioria dos assistidos. O trabalho remoto, à distância, preservou muitos empregos. Dizem até que veio para ficar. Enfim, de férias no bolso, decidi ir para Ilha Grande/RJ. Fui sozinho.

Uma semana num lugar paradisíaco, onde a pandemia só existia em locais como mercado ou farmácia, porque o uso da máscara era obrigatório, no resto... Entre trilhas no mato, locais históricos e passeios de lancha, foram sete dias bem agradáveis.  Voltei para SP (7h de ônibus) e quando cheguei estava gripado, bem leve, nem associei ao Covid. Tomei um antigripal qualquer e fui para a casa da minha namorada, era a semana do seu aniversário. Fui no dia natalício, que caiu numa quinta-feira, e no sábado, em que foi feito um almoço de celebração, com pouquíssimos familiares. As recomendações era que se evitasse “aglomerações”, mas confesso que era (e é) muito difícil não juntar um mínimo de pessoas. Acredito que para a maioria foi assim. Nesse mesmo dia, à noite, viajei para Ubatuba, litoral norte de SP. Já havia alugado uma casa, junto com meus dois irmãos, que estavam lá desde sexta-feira.

Cheguei lá quase no domingo (5h de ônibus), meu irmão, junto com a namorada, me apanhou na rodoviária. No domingo, céu limpo, sol brilhando, nada mais lógico do que encher o isopor e ir à praia, aproveitar. Na madrugada de segunda-feira acordo com uma dor de cabeça que nunca havia sentido. Parecia que minha cabeça iria explodir. Engulo alguns comprimidos, coloco gelo numa sacolinha plástica e levo à testa, tentado amenizar o sofrimento. Passo a madrugada tirando curtos cochilos no sofá, até amanhecer. No desjejum, mal consigo terminar o copo de leite com café. Tento comer algo, mas não desce. Passo o dia me sentindo mal, a tosse aparece ainda leve e considero a possibilidade de estar com Covid. Só vi um hospital na cidade e estava cheio. Pelo site do plano de saúde, procuro algum local onde eu poderia ser atendido, mas o mais próximo ficava na cidade vizinha. Decido voltar para a capital, o que se mostrou o certo a ser feito.

Compro a passagem para as 9h da manhã, chego à tarde, passo em casa, banho e troca de roupas, vou ao hospital. Devido aos meus sintomas (a tosse piora), sou encaminhado para uma ala que é só para Covid. O curioso é que em pouco tempo, nem meia hora de espera, a quantidade de pessoas que chegaram foi impressionante. Sou atendido, faço o teste das hastes, exame de sangue e uma radiografia do tórax. O exame que detecta o vírus demorava até 48h para ficar pronto. Enquanto eu esperava para ser chamado pelo médico, ao meu lado havia um rapaz explicando para a esposa e o filho que teria que ficar internado, pois a doença já havia atingido 25% de seu pulmão e, por ter um problema na perna, corria sério risco de ter uma trombose. Fiquei apreensivo, ¼ de pulmão infectado, caramba! Chega a minha vez e observando minha radiografia o médico prefere me afastar do trabalho por 11 dias, passa uma receita para o início imediato do tratamento, em casa. Pouco mais de 24h depois o exame das hastes confirma: 19/05/2021 - “NOVO CORONAVIRUS 2019 (SARS-COV-2), DETECÇÃO POR PCR”.

Trancado em casa (moro sozinho), familiares, namorada, trabalho e amigos avisados, fico em isolamento total. Por recomendação de um amigo, compro via internet um oxímetro, um aparelho minúsculo que você põe na ponta do dedo indicador, para medir a saturação, o nível de oxigênio no sangue. Esse aparelho foi fundamental. Três dias se passaram e eu pioro muito. Tomar banho era um sacrifício, não parava de tossir um segundo. Ficava a maior parte do tempo deitado, sem sentir fome. Numa manhã fui medir a saturação, marcou 85. A recomendação era de que se baixasse para menos de 90, teria que voltar ao hospital. Esperei mais algumas horas, medi novamente e nada de subir.  Avisei a todos, chamei um motorista de aplicativo, voltei ao hospital.

            Foi complicado chegar lá, mal conseguia falar sem tossir. Foram feitos novos exames, outro de sangue e uma tomografia. A médica me chama e dá a pior notícia que já recebi até hoje: seu pulmão foi comprometido em 50% pela doença, vou ter que interná-lo direto na UTI. Fique sem reação…  Respondi “ok”, avisei meus familiares, que rumaram na hora para o hospital. Minha namorada entrou em desespero. A partir desse momento, aonde eu fosse conduzido, iria de cadeira de rodas. Era domingo, começo de tarde, que pareceu ser bem longo.

            Fiquei internado num grande hospital, na Av Paulista. Se não me engano haviam 8 UTIs, cada uma com capacidade para 10 a 15 pacientes, todas estavam lotadas. Algumas foram montadas às pressas, devido à demanda, segundo funcionários me relataram. E tudo isso era só para doentes de Covid.  Fiquei numa ala que era uma espécie de “triagem”, esperando vagar um leito na unidade intensiva. Devo ter ficado umas 3h esperando, nesse meio tempo minha mãe e irmão chegam. É difícil olhar para a mãe num momento desses, que visivelmente estava abalada, até mais do que eu, que poderia ter morrido.  Minha namorada só me relatava que estava em prantos. Amigos a todo minuto enviavam mensagens pelo celular. Na hora de ir para a UTI, foi mais difícil, porque minha mãe só poderia me acompanhar até determinado ponto. Choros a parte, um momento desses, de separação, só Freud explica.

            Fico numa ala improvisada, com mais 9 pacientes, todos separados por “cortinas” (ou algo do tipo). Parece um tanto precário eu relatando assim, mas era tudo extremamente bem equipado, com enfermeiros e médicos a todo momento. O primeiro médico vem me “recepcionar”, fala sobre meu estado, o que poderia acontecer, mas me tranquiliza porque, apesar da doença ter se espalhado muito, o quadro era instável e provavelmente de reversão.  Apesar do susto, tudo caminhava bem. Como eu estava consciente, permitiram que eu ficasse com o celular, o que foi muito bom, porque o tempo passou mais rápido. Na linha do “há males que vem para o bem”, nesse meio tempo falei com amigos que não conversávamos há mais de anos. Um reencontro “por motivos de força maior” que foi benéfico. Na segunda-feira à tarde retiraram o meu cateter nasal, pois minha saturação permanecia acima de 95. O médico da noite me disse que eu era o “melhorzinho” daquela ala. Realmente era verdade: nos dois dias que fiquei nessa UTI, não vi ninguém acordado. Como eu ia ao banheiro andando, tive como observar o entorno. E, sinceramente, é triste demais ver várias pessoas desacordadas, deitadas sobre as camas, esperando por melhoras. Espero que tenham conseguido se recuperar. Na terça-feira pela manhã, já com o quadro de saúde bem melhor, sou removido para um “quarto normal”. Era hora de abrir espaço para outro.

            Vou para o quarto, todos ficam aliviados. Passo o dia lendo, revezando o livro com a tevê. Na conversa com os funcionários, todos, dos faxineiros aos médicos, tiveram Covid. Alguns relataram sequelas, dos mais variados tipos: dores musculares, perda de memória, fraqueza, queda de cabelo (?!)… e a médica que me acompanhou nesse estágio da minha internação falou sobre as possibilidades que eu ainda poderia enfrentar.  Fico mais três dias internado, recebo alta na sexta-feira as 12h. Em poucos mais de 10 dias fui do 0 aos 50% do pulmão infectado, e voltei a quase zero. Que belo susto, regado a uma enxurrada de remédios! Doses intravenosas, injeções na barriga, capsulas, xaropes, de tudo um pouco.

            O pós-doença também é bem complicado. Fisioterapia muscular, muitos remédios para o sistema respiratório, efeitos colaterais, e mais alguns dias de molho. Uma semana depois de sair do hospital eu já estava de volta ao trabalho. Fui recuperando a velha forma aos poucos, tudo correu bem. Mas as notícias de novas perdas não paravam. Um tio, um primo do meu pai, um vizinho que vi crescer e aos 39 anos, sem comorbidades, todos foram levados pelo Covid. Aliás, essa estória de que as pessoas com comorbidade correm maior perigo é balela. Essa doença não tem padrão, todos estão em sua alça de mira. E por ser uma doença nova, ninguém sabe ainda o que pode nos reservar no futuro. Enfim, descobrimos o que é uma pandemia da pior forma: vivendo-a. Aos que sobreviveram, vacinem-se, lavem as mãos, abracem as pessoas queridas e cuidem-se.


SP/SP – 24/11/2021

André Braga

@ABPoeta


11/05/2020

Receita de um país na brasa



  • Pegue a carne de um povo bovino (geralmente é bem barata);
  • Deixe de molho em séculos de descaso, falta de planejamento e má educação;
  • Adicione uma sequência de governos pífios que legislaram em causa própria;
  • Separe a carne em partes, de forma que uma sempre acredite ter mais “razão” do que a outra;
  • Reforce com condimentos aplicados de maneira diversa, para manter a textura desigual;
  • Coloque um pouco de molho de pimenta vermelha;
  • Por conta da laicidade natural, adicione religião de forma desmedida;
  • Retire a ciência;
  • Adicione idolatria às figuras espúrias e culto à ignorância;
  • Besunte com comodismo e desconexão com a realidade;
  • Invente verdades e salpique a gosto;
  • Enrole-a em revoluções e ditaduras;
  • Mantenha sempre a carne à beira do caos;
  • Em caso de pandemia, mais desinformação deve ser adicionada;
  • E por fim é bom a carne já ir ao fogo.

Enquanto a carne assa sobre a brasa, dar uma volta de jet-ski é recomendada. Cuidado para não cair.


Quadro "Primeira Missa no Brasil", de Victor Meirelles (1832 - 1903)




08/05/2020

Sobre mães e paladares



  Mais um dia das mães se aproxima e a programação geralmente é a mesma (para quem pode): ir almoçar na casa da mãe. Relembrar o gostinho da comida da mamãe é sempre bom. Algumas vezes (também para quem ainda pode) essa reunião familiar acontece na casa a vovó, que segundo o dito popular, é mãe duas vezes, porque cria os filhos e depois os netos. E esse encontro de gerações, torna a refeição duas vezes mais saborosa.

 Os pais educam (ou educavam) os filhos de muitas maneiras: ajudam com o dever acadêmico, moldam o caráter no sentido moral, ensinamentos mais peculiares como o musical, trabalhos manuais e artísticos, e formam também o paladar. Há pais que também cozinham, mas no geral são as mães que botam a mão na massa. Principalmente da minha geração, em que um saía para ganhar o pão e outro cuidava do lar.

  Como cresci comendo (e muito) também nas casas dos meus avós, há sabores que aprendi a gostar, como o feijão da minha avó materna e a “marmota” que minha avó paterna fazia. Eu achava tão gostoso o feijão da minha avó materna que comia até os pedaços de cebola, coisa que eu não fazia em casa. Sempre fui chato pra feijão, inclusive. A “marmota” que minha avó paterna fazia era uma delícia! “Marmota” é um bolinho de polvilho doce, em forma de laço, que era frito e depois passado no açúcar ou canela, e era uma festa porque geralmente quando minha avó fazia, estamos vários primos reunidos. Bagunça geral! Minhas avós já se foram e levaram junto esse meu paladar. Já comi muito feijão bem feito, temperadinho e tal, inclusive o da minha mãe, mas um de mastigar a cebola, com gosto, esse se foi. A “marmota”, minhas tias fazem, minha mãe faz, mas... Falta algum toque diferente, um tempo a mais na fritura, um descanso a menos da massa... Não sei o que é, mas se foi também.

 Já a minha mãe faz pratos que considero especiais e que nunca comi melhor por aí: panquecas, almondegas, bolinho de bacalhau e torta de carne (ou frango) são imbatíveis. Uma vez, numa empresa em que trabalhava, fizeram uma vaquinha para comprar os ingredientes da torta de carne e pediram para minha mãe fazer. Ela atendeu o pedido, claro. Na sexta-feira santa, bolinho de bacalhau é imprescindível. Muitas vezes como só o bolinho, e vários! Ela também é muito boa com bolos. Em aniversários ou na hora do café da tarde, sempre há um belo bolo sobre a mesa. Claro que há muita memória afetiva em tudo isso, mas cozinhar também é uma forma de ser carinhoso. E carinho é bom, não é? Carinho enche barriga.

 No começo da minha adolescência o paladar se ampliou: as redes de fast food começaram a fazer parte da vida. Ir ao shopping e comer no McDonald's passou ser o programa principal. Isso no final dos anos 1980, decorrer dos 90. Hoje essas lanchonetes, essas bandeiras de grife, se multiplicaram: do Burger King ao Outback, passando pelo Habib's, Giraffas... Isso sem falar na trash food, os “dogão”, churrasquinho grego, uma “sub-rede” de lanches que, sinceramente, acho até mais gostosa. Tem de tudo um prato, de tudo um preço, para todos os gostos.

 A vida, as obrigações e tecnologia avançaram, o sistema de delivery se aperfeiçoou e vieram os aplicativos, como o Ifood. Somando essa facilidade de pedir comida, com a falta de tempo, cozinhar ficou cada vez mais “trabalhoso”. Sair cedo de casa, trabalhar, estudar, levar filho para a escola, buscar filho no curso (natação, balé...), afazeres do lar e ainda ter que cozinhar? Nem pensar. Com a maioria das pessoas afogadas em rotinas, essas redes de fast food começaram chegar mais cedo à boca das crianças. Isso sem falar em uma série de guloseimas industrializadas. Imagine o quanto isso uniformiza o paladar. Teremos gerações futuras com o paladar formado pela indústria alimentícia e, talvez, elas se “reeduquem” quando adultas. Deve ser triste não ter um carinho gustativo para lembrar.

 Claro que também utilizo os aplicativos para pedir comida, e tem muita coisa gostosa para comer. Mas igual à de casa, da mãe, não tem concorrente que supra o sabor, que vai além da mera degustação. O mais curioso é que existem restaurantes que oferecem a seus clientes a tal “comida caseira”. Só não fornecem a lembrança junto, porque a comida feita em casa leva um tempero que só existe na nossa memória. Está lá gravado, não se cozinha isso. Inclusive no dia das mães vou até a casa dos meus pais para almoçar, não só uma bela refeição, mas também alguma lembrança bem boa. E irei em outras datas porque haverá um dia em que a sexta-feira santa não terá o mesmo sabor. Bom apetite a todos.


AB




21/02/2015

Esquina digital


Muita gente fala que a Internet está distanciando as pessoas, que as relações tornaram-se frias com o advento da era digital e coisas do gênero, o que discordo completamente. Se a pessoa não quer te ver, ela não quer te ver e ponto final. Fazer contato hoje é muito fácil, quem não quer fazer é porque não está afim mesmo. Não é a internet que provoca esse distanciamento. Na verdade não sei o que seria da amizade sem as redes digitais, que se proliferam cada vez mais. Parece contraditória minha opinião com o consenso geral sobre internet, mas você que está lendo esse texto, logo vai entender onde quero chegar e o porquê da minha posição.

Minha infância foi igual à de qualquer criança de periferia (na década de 1980), foi brincada na rua, com um monte de outras, que faziam parte da mesma vizinhança ou do colégio. A amizade era formada a partir de um território geográfico habitado em comum. Acabava a aula, íamos para nossas casas guardar o material escolar e correr para a rua, todo dia era assim até o fim do dia.

A adolescência (ou pré) deu as caras e ao invés de nos juntarmos para brincar, ficávamos na esquina dessa mesma rua que nos serviu de playground, conversando sobre tudo quanto é coisa que nosso pouco conhecimento permitia e nossa limitação territorial alcançava. E outras turmas de jovens se formavam em outras esquinas e assim por diante. Existia até certa rivalidade entre alguns grupos, o que acredito ser normal para a idade. Juventude sem rebeldia não é juventude.

Com a idade avançando, a responsabilidade chega junto: aos quatorze anos saíamos para procurar emprego (a lei ainda não proibia), o que alterou totalmente nossa rotina de amizade: passávamos a nos encontrar só anoite no colégio e a esquina ficava para os finais de semana. Quando nos reuníamos, cada um contava sua nova experiência, sua expectativa e sobre as novas amizades. Durante um bom tempo a esquina foi nosso ponto de encontro, nossa sala de bate papo.

E o tempo passou, entramos em faculdade, outro emprego, cursos extras e nesse entra e saí de instituições, novas amizades são feitas, porém sem tanta substância, pois o único ponto de união entre as pessoas é a instituição. E o desligamento de determinada instituição, implicava também em deixar para trás muitos colegas. Adicionar em rede social, isso ainda nem imaginávamos que pudesse um dia existir.

Uma das instituições por qual passei e formei muitos amigos foi o Exército. Como todo jovem a beira dos dezoito anos, eu não queria servir à pátria, mas... Serviço Militar Obrigatório, isso já explica o meu ingresso na vida militar. Foram exatos um ano um mês e dez dias de vida de soldado, nem preciso falar que muita coisa aconteceu e que conheci muita gente. Éramos cento e vinte na mesma companhia, havia quatro companhias diferentes, fazendo uma conta rápida, foram quase quinhentos jovens que ingressaram juntos, somados os que já estavam lá, que optaram por aquela vida... Aquela vida.

As baixas do exército são concedidas em três momentos diferentes: a primeira com oito meses de incorporação, a segunda com onze, a terceira e última com um pouco mais de doze, que foi a minha. Fiquei até o último dia, até o fim. Fui o chamado NB - Núcleo Base - (lembra daquela música do Ira!?). Lembro-me desse dia até hoje, um dos mais felizes da minha vida, sem dúvida.

Com o fim do serviço militar obrigatório, a maioria das amizades ganhou distância, outras até foram esquecidas. Nessa época (1995), Internet era coisa de mega-nerd que tinha acesso a computador. E ser mega-nerd não era pra qualquer um. O PC também era algo distante, de difícil acesso. Lembro que trabalhei numa empresa que só tinha um no departamento e só uma pessoa é que sabia mexer nele. Não era como hoje, que o PC virou um eletrodoméstico vendido em qualquer magazine, com prazos de pagamento a sumir de vista. A produção em larga escala e a neoescravidão dos trabalhadores em países asiáticos, barateou o PC e possibilitou seu acesso para quase todo mundo do mundo todo. Nesse contexto de proliferação tecnológica é que as redes sociais entram em campo e ganham grandes dimensões, adeptos e reformulou nossas relações interpessoais.

Como todo brasileiro que teve acesso à internet em meados dos anos 2000, ingressei no Orkut, rede social que virou febre e que recuperou muita coisa relativa à amizade, acredito eu. Era (e é) muito fácil: é só lembrar-se do nome da pessoa a ser encontrada e, caso ela também faça parte da rede, você irá encontra-la. E foi o que aconteceu. Confesso que no começo achava essas redes uma perda de tempo, uma bobagem total. Com certeza eu não havia entendido o poder de integração entre as pessoas que essas redes proporcionam. Em pouco tempo eu havia encontrado muita gente que fazia muito tempo que eu não tinha nenhum tipo de contato nem notícia. O pessoal que estudou comigo no colégio, gente de empresas que trabalhei, o pessoal do quartel... E através de um você chega a outro e a outro e a outro... De repente tanta gente que eu nem lembrava que existia mais, ressurgiu. A maioria do pessoal do quartel eu não via a pelo menos uns quinze anos. É muito tempo e gente para guardar só na memória.

Nesse reencontro digital, formamos uma comunidade no Orkut (Sim, servi a PE em 94) e começamos a nos falar. No começo juntamos vinte e cinco pessoas. Começamos a tentar localizar quem não estava no grupo, a trocar ideias, fotos e fatos esquecidos. O Orkut caiu de moda e entrou o Facebook em seu lugar. Todos migraram para a nova rede que crescia no país e começamos a encontrar mais e mais gente, no Brasil e fora dele.

No dia da última baixa, um parente de alguém levou uma câmera filmadora VHS, máquina e fita enormes, parecida com aquelas que as redes de televisão utilizam. Eis que transformaram a filmagem de VHS em arquivo AVI e isso foi distribuído entre nós. Foi emocionante rever esse dia, a formatura completa de desincorporação. Toda vez que vejo esse vídeo fico feliz novamente. Depois de convertido o vídeo em arquivo, ir parar no YouTube foi um pulo. A lembrança “upada” na rede, agora pode ser acessada e assistida por qualquer um a qualquer momento.

O novo grupo no Facebook recrutou mais gente e só faltava agora nos encontrarmos. Foi o que aconteceu: marcamos num sábado, num bar em que um do grupo trabalhava e em determinada tarde estávamos lá, dezesseis anos depois da baixa. Vou dizer algo totalmente clichê, mas foi como se um filme passasse na minha cabeça. As lembranças tomaram conta da tarde, do ambiente e muita coisa que estava esquecida veio à tona. Um lembrava de uma história e outro de outra, ficamos sabendo o que um faz hoje, o que fez, quem casou, quem não engordou, quem ficou careca, quem sumiu do mapa, quem morreu.

Esses encontros se multiplicaram e em cada novo encontro surge alguém novo e novas conversas. Foram tantas as histórias, as lembranças, que viraram um blog, onde qualquer um pode escrever e colaborar com a memória coletiva.

Neste ano de dois mil e quatorze faremos vinte anos de incorporação no 2º Batalhão de Polícia do Exército e vamos celebrar o acontecimento! Tenho certeza que se não fossem as redes sociais, nenhum desses reencontros teriam acontecido. Seriamos uma lembrança que seria acessada somente por poucas fotos, que passariam boa parte do tempo guardadas em alguma gaveta por aí.

Hoje qualquer novidade pode ser contada via rede e todos do grupo ficam sabendo. Os laços foram reatados, as pessoas reencontradas e essa nova esquina, esse novo ponto de encontro e troca de ideias, com toda certeza, vai prolongar muitas amizades por muito tempo.


O último fora de forma.

13/12/2014

Impostos: álibi dos preços altos!


Vejo estas imagens circulando por aí (e outras parecidas) com textos sobre a diferença de preços entre o panetone que é vendido aqui e o que é vendido em países como o Canadá ou EUA e o vendido aqui é sempre mais caro. Geralmente esses textos culpam a carga tributária brasileira por esse preço maior, mas acredito que as pessoas que os escrevam relevam vários fatores importantes em consideração:

1 – Se o panetone é fabricado no Brasil, então ele recebe a carga tributária brasileira. Quando é exportado, também recebe cargas tributárias de acordo com cada país, ou seja, os impostos são maiores. Geralmente países como EUA, por exemplo, tem leis que protegem a indústria interna, o que eleva a carga de tributos de produtos importados;

2 – A marca Bauducco tem alguma relevância no mercado externo? Aqui ela é vendida como top, mas fora do Brasil acredito que não seja, o que faz com que o preço caia, para que ela consiga entrar (concorrer) no mercado externo;

3 – O produto panetone tem alguma relevância na mesa dos gringos? Aqui todos os lares, absolutamente todos, terão panetone na ceia de natal. Já em outros países... Costumes diferentes, preços diferentes;

4 – Panetone é sazonal e estamos justamente na época em que ele é mais caro, pois a procura é muito maior: equação básica: maior a demanda, maior o preço. Veja os preços fora da época de natal, será muito menor;

5 – A concorrência no mercado externo é igual à concorrência no mercado interno? No Brasil os mercados em geral são oligopólios, dominados por meia dúzia de grupos empresariais, o que faz com os preços (em geral) aumentem, pois a concorrência é menor.

Uma coisa que parece que o brasileiro ainda não se ligou é que (além de impostos) ele se acostumou a pagar altas margens de lucros para os poucos grupos empresariais que dominam o mercado.

As empresas, que têm como fórmula “maior lucro com menor custo”, cobram altíssimas margens de lucros e ninguém reclama. Pior ainda, as pessoas não pensam duas vezes para se endividar e terem o que desejam.

Existem exemplos clássicos disso, como carros, que aqui são fabricados a preços de banana e vendidos a peso de ouro, mesmo com menos imposto. E o Playstation 3, que custava R$4.900,00 no lançamento (culpa da carga tributária, segundo diziam) e hoje não passa de R$900,00! De R$4.900,00 para R$900,00 você realmente acha que são de impostos?


Aqui no Brasil as empresas sugam o máximo que podem e na maioria das vezes não devolvem em produtos ou serviços de qualidade.

É preciso refletir com mais profundidade, antes de crer que são somente os impostos que encarecem nossa vida.





31/08/2014

Alckmia


É domingo e chove em SP...

Há quanto tempo isso não ocorre? É domingo à noite e a água escorre pelos córregos, fossos e poços. Fantástico! Quem sabe ela até alcance os lençóis freáticos e ressuscite o volume morto.

É domingo e chove em SP, a maior cidade da América Latina, feita de asfalto, aço, concreto, armações e outras latrinas.

É domingo e chove em SP; enquanto isso Geraldo corre feliz a banhar-se pelo gramado verde do palácio, todo molhadinho, com sua camisa azul calcinha, mamilos duros e sorriso aberto, livre, leve... Solto.

É domingo e chove em SP. Geraldo corre sob a chuva e agradece:

“nada melhor pra coroar
o plágio do aerotrem
em tempo de eleição
que rima com inauguração
mas com coincidência, não
e muito menos com consciência

joga mais água no chão
pro povo ficar alegre
esquecer da seca agreste
e esbanjar no verão!

manda mais água no solo
que de novo o povo vota
molha minha garganta
eles gostam de lorota

jorra essa água
pro contribuinte
enquanto eu lavo a égua
o que é mais quatro
pra quem está a vinte?

grato pela água
que desagua no seco
e diminui o eco ativo
negativo na campanha

no final quem ganha
sou eu”


É domingo e noite de chuva em SP... Segunda-feira, essa nem quero ver.


um chuchu totalmente indigesto

Tchau Bienal


Fui na Bienal do Livro SP, que merda!

Os livros estão tão caros ou até mais do que nas livrarias.

traga sua bacia e sua paciência.
As promoções, R$10,00 a unidade, só foram feitas pelas distribuidoras, que querem desovar seus encalhes. Amontoam dezenas de livros, que vão desde receitas de bolo até biografias, e caso você dê sorte, encontra algo que preste.

Acredito que se é para divulgar as obras, ganhar leitores (público consumidor) e divulgar as livrarias, as promoções seriam imprescindíveis, o que não aconteceu.

Se é para pagar o mesmo preço que na loja, então compro na loja; ou compro em Sebo (que acredito ser a melhor das opções). E compro pela internet!

Mesmo assim ainda comprei 5 livros (nas promoções de 10,00, claro!) em três distribuidoras diferentes e, por incrível que pareça, nenhuma aceitou o Vale Cultura.

Obras como "A arte da guerra" de Maquiavel, que não sofre acréscimo de direitos autorais, já que o autor morreu no século XVI, estão sendo vendidas por, no mínimo, R$20,00 no formato pocket. Um livro desse provavelmente é impresso aos milhares, o que joga ainda mais o preço para baixo. Não tem por que custar tanto.

O clima de "grande evento da América Latina" acho que deu, para alguns escritores, mais o brilho de pop star do que de grande escritor.

A bienal não acrescenta em nada para quem realmente gosta de literatura e, pior, acho que não angaria novos leitores.

slogan manjado demais.

06/07/2014

O futebol força e a ascensão do “perna de pau”


Gosto de futebol. Sou santista, mas sempre procuro assistir os jogos de meios e finais de semana, independente de quem jogue. E é notório que ultimamente os jogos dos campeonatos realizados no Brasil, seja ele qual for, estão duros... De se ver.

Com a saída em peso dos nossos craques para o estrangeiro, o nível técnico dos campeonatos caiu consideravelmente, descambou ladeira abaixo, para ser mais direto. Hoje nos contentamos com poucos craques que, depois de rodarem o mundo, voltam ao futebol brasileiro para encerrarem suas carreias, nos braços de alguma torcida.

O futebol tem muitos chavões que eu acredito que colaborem para essa entressafra técnica por qual passamos (e não tem previsão de acabar): coisas do tipo “bola pro mato que o jogo é de campeonato”, “ombro a ombro não é falta” e, o pior deles, “o futebol é um esporte de contato”, o que é uma lastima de se repetir e acreditar.
Esportes como o Rugby ou o futebol americano sim, esses são jogos de contato. Mesmo sendo esportes aparentemente “violentos”, o contato é regrado e existe a falta durante o jogo. Nem todo contato é permitido.

Malde pouca é bobagem!
Fazendo um paralelo entre esportes, o basquete é bem interessante: cinco jogadores gigantescos de cada lado e só o fato de um encostar a mão no braço do adversário, já é considerado falta. Caso a equipe faça mais de quatro faltas, terá como penalidade um lance livre da equipe adversária. Caso um jogador faça cinco faltas individuais, está fora do jogo! Ou seja, a falta é rigorosa e beneficia o espetáculo, ao contrário do futebol, que é utilizada como arma de defesa, principalmente pelos times e jogadores menos técnicos.

Claro que no basquete há o contato corporal, choques feios até, pois não há como dez atletas enormes correm para todos os lados dentro de uma quadra relativamente pequena sem se trombarem, mas esse contato físico não é entendido como uma espécie de sub-regra, como é no futebol.

Antes do começo da copa, no amistoso disputado entre Itália e Irlanda, o jogador italiano Montolivo quebrou a perna, após divida numa jogada com o adversário irlandês; ou seja, em jogo que não valia absolutamente nada, por conta de uma disputa, por conta da vontade acime de tudo, Montolivo vai ver a copa do sofá e com gesso na perna.

No último jogo da seleção brasileira, já pela copa do mundo, contra o time da Colômbia, todos ficaram chocados com a falta que o defensor colombiano Zunica fez no craque Neymar, que graças ao lance teve fratura vertebral e está fora do mundial. O jogador colombiano também teve outra entrada forte em lance anterior, em Neymar, e parou a jogada do atacante Hulk, solando seu joelho, o que no mínimo pareceu desleal. E nem cartão amarelo ele recebeu pelas consecutivas faltas!

Salto no vaco com joelhada
técnica do grande Sawamu!
Não dá para julgar se o defensor colombiano foi ou não desleal, mas dá para dizer que suas atitudes foram inconsequentes. As perguntas que eu acredito que caibam nesses episódios, e os casos citados merecem estes questionamentos, são: até que ponto a vontade de vencer legaliza faltas inconsequentes? Até que ponto ainda vale repetir que “o futebol é um esporte de contato”?

Acreditar que “o futebol é um esporte de contato” só favorece o “perna de pau”, o “cabeça de bagre”, favorece somente “o futebol força”, triste de se ver e pior ainda de se torcer. A técnica, que é o que tanto reclamamos que está desaparecendo, sofre por conta dessas crenças idiotas.

Hoje o “perna de pau” tem espaço no futebol graças a crenças como essas. O jogador técnico corre o risco de se lesionar por conta das pancadas que recebe e ainda ganhar a mesma fama que o craque Neymar: de cai-cai. E graças ao “futebol força”, graças à crença de que “o futebol é um esporte de contato”, fim de copa para uns dos melhores jogadores do mundial.

Espero que depois desse fatídico episódio, passemos a questionar até que ponto vale crer que “o futebol é um esporte de contato”. A dupla “perna de pau” e “cabeça de bagre”, que é o que mais existe no futebol atual, torce para que essa ideia nunca seja questionada. Já está na hora de mandar essa dupla, no mínimo, para o banco.


Que o craque se recupere. Que o Brasil seja o campeão!