Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens

15/04/2022

Projeto "Somos"


A APCEF/SP (Associação de Pessoas da Caixa Econômica Federal de São Paulo) para comemorar seus 115 anos de existência, lançou no dia 08/04/22 a versão digital do livro “Somos”, e publicaram o meu texto. Para quem quiser a versão digital, é só fazer o download gratuito no link abaixo.

 Sobre o projeto:

“Este projeto nasceu de conversas, da ideia de eternizar o importante trabalho dos empregados da Caixa durante a pandemia. Assim nasceu o projeto “Somos”, um livro no qual os bancários contam como foi trabalhar no único banco público do País em um momento crucial da história do mundo. A pandemia mudou a forma de encarar o trabalho e trouxe muita coisa nova para o dia a dia no banco público. Mas o principal foi o que aconteceu com cada pessoa. O conjunto de acontecimentos traça o que significa este momento único na história da Caixa e da sociedade. ”






    Meu texto foi parcialmente publicado, devido ao limite de caracteres disponível. Mas é possível lê-lo na íntegra aqui abaixo:


Efeito dominó

 

Com certeza ninguém imaginou que um dia passaríamos por uma pandemia. Aliás, a palavra “pandemia” era algo esquecido no dicionário. Mesmo com históricos de epidemias anteriores, como a de gripe espanhola, praticamente há 100 anos atrás, ou a de varíola (1977), que o governo militar tentou esconder, viver algo semelhante estava fora de questão. O avanço da medicina somado ao número de fármacos e vacinas que temos disponíveis, nos dá a sensação de ter certa “segurança sanitária”. Mas depois do ano de 2020, com certeza essa “segurança” se mostrou muito frágil. 

No final do ano de 2019 começaram a pipocar notícias sobre um novo vírus que ataca nosso sistema respiratório, mas acho que pouca gente deu bola para isso. Virou o ano, as notícias sobre o micro-organismo aumentaram, a OMS - Organização Mundial de Saúde entrou em cena, mas, quem se importou? O pior é que o momento foi propício para que o futuro protagonista mundial, o coronavírus, se espalhasse: festas de final de ano, férias, carnaval, turismo a mil por hora. Vale lembrar que o ano de 2020 começou com o então presidente americano Donald Trump ordenando um bombardeio no Irã (Bagdá), que resultou na morte do general Qassem Soleimani... mau presságio? Com certeza!

Logo após o carnaval fui com minha namorada passar férias em Florianópolis/SC. Muita praia, sol, cerveja, porções e nada de pensar em vírus, lógico! Mas quando estávamos para voltar a SP, em meados do mês de março, as notícias sobre uma epidemia que se espalhava muito rápido, e mundialmente, começaram a ser constantes. Daí tudo mudou. Em São Paulo o governador já havia decretado o fechamento de centros culturais, museus, locais públicos e começou a se falar em “medidas restritivas”, fechar o comercio e um tal de lockdown. Em Santa Cataria, a mesma coisa: cidades fechando rodoviárias, praias interditadas, e o espanto da péssima novidade se misturava à insegurança com o futuro. O que poderia acontecer? Quando embarcamos no aeroporto, voltando para São Paulo, o clima era outro, todos os funcionários usavam máscara, que logo se tornaria item de uso obrigatório e indispensável. E o que se achava ser uma epidemia, virou a tal pandemia!

Chegamos na capital paulista e o impensável acontece: fecha-se todo o comércio, decreta-se medidas sanitárias obrigatórias e a preocupação toma conta de todos. Quando retorno ao trabalho no banco (agência Bernardino de Campos/SP) o horário é alterado, passando a funcionar das 08h às 14h, e pouco tempo depois reduziria o fechamento para as 13h. Coincidentemente o primeiro caso de morte por Covid-19 é registrado em SP: um homem de 62 anos que veio a óbito, num hospital que fica a poucos metros da agência. A doença chegou com força e já estava muito próxima.

O governo federal decretou alguns serviços como essenciais ao funcionamento da sociedade, dentre eles o serviço bancário. Na agência em que trabalho há dois caixas, eu e outra funcionária, que foi considerada do “grupo de risco” e teve que aderir ao trabalho remoto. Fiquei sozinho no atendimento de caixa, às vezes ajudado pelo tesoureiro. Em seguida foi implementado o “auxílio emergencial”, que fez as agências da CAIXA lotarem! Ou seja, não fiquei de quarentena, utilizava o transporte público para ir e vir, atendia dezenas de pessoas todos os dias, então ser contaminado seria questão de tempo. Agora, quanto tempo levaria, não havia como saber.

O número de contaminados começou a subir vertiginosamente e, consequentemente, o de mortos. E veio a primeira bomba: um ex-funcionário, que foi gerente PJ em nossa agência, morreu de Covid, aos 37 anos. Lázaro Falcirolli era jovem, casado, dois filhos, havia saído do banco a poucos mais de dois anos, para abrir sua própria empresa. Teve o sonho abreviado. Dias depois, outra bomba: um rapaz que trabalhava como motorista para a proprietária de uma das lotéricas que dávamos suporte, faleceu. Era o Eduardo, um rapaz de pouco mais de 40 anos, às vezes ia até agência, sempre simpático, aparentemente uma pessoa fisicamente forte, porém... O cerco parecia que cada vez mais se fechava: o cunhado do segurança falece; um amigo meu de bairro também se vai; outro amigo é internado e intubado; as notícias sobre internações são constantes. Hospitais de campanha foram improvisados em várias cidades, além da capital, tamanha foi a demanda por leitos. Cada vez mais pessoas eram diagnosticadas com Covid.

Os meses passam, o braço de ferro político-partidário é cada vez mais disputado e nós, meros mortais, ficamos no meio de um tiroteio ideológico raso e improdutivo. Enquanto a ciência mundial corria atrás de uma vacina, métodos paliativos ocupavam a pauta midiática diária da opinião pública, criando discussões inúteis. Nesse meio tempo toda minha família pegou a doença. Meus pais e dois irmãos. Senti muito medo, pois haviam casos de famílias dizimadas em poucos dias, após a infecção. Mas enfim tudo correu bem. Meu pai, de 75 anos, foi que mais teve sintomas. Fez o tratamento em casa, em poucos dias estava bem novamente. Minha namorada também pegou, de forma leve. Perdeu o paladar por alguns dias, depois voltou ao normal. E boa parte da pandemia ficamos sem nos ver, seguindo as restrições, o que não foi fácil. Escrevi até alguns poemas sobre, seguem dois deles:


I

 

Existe um lado meu

que só existe ao lado teu

e o distanciamento involuntário

fez dessa lado um solitário

 

Não há máscara que proteja

dessa obrigatória tristeza

Cativo, no limite da obediência

coexistir é uma dependência

  

II

 

Já perdi as contas

de quantos beijos vou te dar

esse déficit de amor

você há de me pagar

 

E vou te cobrar com juros

fazer juras e cenas

e quero receber em beijos

beijos desses de cinema

 

            Mas a pandemia não dava sinais de trégua.

Quem gosta de ler sobre história, seja ela sobre qualquer civilização que já povoou qualquer região do planeta, vai perceber que todas praticavam algum rito fúnebre. Cada uma a seu modo, de sambaquis a vasos funerários, passando por incinerações, mumificações, todas davam algum destino a seus finados. A pandemia nos privou disso. As prefeituras, pelo menos nos grandes centros urbanos, restringiram os velórios, muitas vezes partindo direto para o sepultamento. Algumas vigílias foram muito rápidas, com o mínimo de gente e com caixão lacrado. Covas foram abertas em série, para tornar o trabalho do coveiro mais dinâmico. Muitos se foram sem o tradicional ritual de despedida. Uma dor a mais para as famílias que perderam entes queridos. Perdi três parentes num espaço de três meses: um tio, uma tia e um primo… o que é mais triste, do mesmo núcleo familiar. Nenhum deles para o Covid, mas também não puderam ser velados. Com certeza vivemos a época mais tristes de nossas vidas, só sendo muito frio e indiferente para não perceber isso.

Mas enfim algo de bom acontece: desenvolve-se algumas vacinas, que começam a ser aplicadas na população, por escalas de idade. Foi um passo na direção certa, apesar de ainda vigorar o “cabo de guerra” ideológico entre os “vacinação já” e os “anti-vacina”. O curioso foi que a maioria dos políticos “anti-vacina” se vacinaram, junto com seus familiares. Pregavam para a população um procedimento denominado “tratamento precoce”, um kit com remédios ineficazes, mas entre eles a vacina foi a regra. Comprou a ideia do kit quem quis, informação não faltou.

Ainda longe de chegar a minha vez na fila, a empresa solicitou aos funcionários que fizessem o exame de sorologia para Covid-19, para verificar quem estava infectado com o vírus, quem esteve e produziu anticorpos e quem não teve contato, que foi o meu caso. Confesso que fiquei surpreso, depois de tanta gente próxima a mim ter pego, de atender inúmeros clientes na agência, de usar transporte público diariamente e de trabalhar numa região onde há dezenas de hospitais, sair ileso era uma questão de sorte... que não duraria muito tempo.

No começo do texto comentei que havia voltado de férias, e logo teria que marcar outra novamente, para não ter que sair de forma compulsória. No final de abril de 2021 saí de férias. O país tentava voltar a “normalidade”, se amparando em medidas sanitárias, vivendo o que foi chamado de “novo normal”, porém era só uma forma de tapar os olhos para a realidade, em meio a muita gente que não tinha outra opção a não ser voltar ao trabalho. O “auxílio” não resolvia a vida da maioria dos assistidos. O trabalho remoto, à distância, preservou muitos empregos. Dizem até que veio para ficar. Enfim, de férias no bolso, decidi ir para Ilha Grande/RJ. Fui sozinho.

Uma semana num lugar paradisíaco, onde a pandemia só existia em locais como mercado ou farmácia, porque o uso da máscara era obrigatório, no resto... Entre trilhas no mato, locais históricos e passeios de lancha, foram sete dias bem agradáveis.  Voltei para SP (7h de ônibus) e quando cheguei estava gripado, bem leve, nem associei ao Covid. Tomei um antigripal qualquer e fui para a casa da minha namorada, era a semana do seu aniversário. Fui no dia natalício, que caiu numa quinta-feira, e no sábado, em que foi feito um almoço de celebração, com pouquíssimos familiares. As recomendações era que se evitasse “aglomerações”, mas confesso que era (e é) muito difícil não juntar um mínimo de pessoas. Acredito que para a maioria foi assim. Nesse mesmo dia, à noite, viajei para Ubatuba, litoral norte de SP. Já havia alugado uma casa, junto com meus dois irmãos, que estavam lá desde sexta-feira.

Cheguei lá quase no domingo (5h de ônibus), meu irmão, junto com a namorada, me apanhou na rodoviária. No domingo, céu limpo, sol brilhando, nada mais lógico do que encher o isopor e ir à praia, aproveitar. Na madrugada de segunda-feira acordo com uma dor de cabeça que nunca havia sentido. Parecia que minha cabeça iria explodir. Engulo alguns comprimidos, coloco gelo numa sacolinha plástica e levo à testa, tentado amenizar o sofrimento. Passo a madrugada tirando curtos cochilos no sofá, até amanhecer. No desjejum, mal consigo terminar o copo de leite com café. Tento comer algo, mas não desce. Passo o dia me sentindo mal, a tosse aparece ainda leve e considero a possibilidade de estar com Covid. Só vi um hospital na cidade e estava cheio. Pelo site do plano de saúde, procuro algum local onde eu poderia ser atendido, mas o mais próximo ficava na cidade vizinha. Decido voltar para a capital, o que se mostrou o certo a ser feito.

Compro a passagem para as 9h da manhã, chego à tarde, passo em casa, banho e troca de roupas, vou ao hospital. Devido aos meus sintomas (a tosse piora), sou encaminhado para uma ala que é só para Covid. O curioso é que em pouco tempo, nem meia hora de espera, a quantidade de pessoas que chegaram foi impressionante. Sou atendido, faço o teste das hastes, exame de sangue e uma radiografia do tórax. O exame que detecta o vírus demorava até 48h para ficar pronto. Enquanto eu esperava para ser chamado pelo médico, ao meu lado havia um rapaz explicando para a esposa e o filho que teria que ficar internado, pois a doença já havia atingido 25% de seu pulmão e, por ter um problema na perna, corria sério risco de ter uma trombose. Fiquei apreensivo, ¼ de pulmão infectado, caramba! Chega a minha vez e observando minha radiografia o médico prefere me afastar do trabalho por 11 dias, passa uma receita para o início imediato do tratamento, em casa. Pouco mais de 24h depois o exame das hastes confirma: 19/05/2021 - “NOVO CORONAVIRUS 2019 (SARS-COV-2), DETECÇÃO POR PCR”.

Trancado em casa (moro sozinho), familiares, namorada, trabalho e amigos avisados, fico em isolamento total. Por recomendação de um amigo, compro via internet um oxímetro, um aparelho minúsculo que você põe na ponta do dedo indicador, para medir a saturação, o nível de oxigênio no sangue. Esse aparelho foi fundamental. Três dias se passaram e eu pioro muito. Tomar banho era um sacrifício, não parava de tossir um segundo. Ficava a maior parte do tempo deitado, sem sentir fome. Numa manhã fui medir a saturação, marcou 85. A recomendação era de que se baixasse para menos de 90, teria que voltar ao hospital. Esperei mais algumas horas, medi novamente e nada de subir.  Avisei a todos, chamei um motorista de aplicativo, voltei ao hospital.

            Foi complicado chegar lá, mal conseguia falar sem tossir. Foram feitos novos exames, outro de sangue e uma tomografia. A médica me chama e dá a pior notícia que já recebi até hoje: seu pulmão foi comprometido em 50% pela doença, vou ter que interná-lo direto na UTI. Fique sem reação…  Respondi “ok”, avisei meus familiares, que rumaram na hora para o hospital. Minha namorada entrou em desespero. A partir desse momento, aonde eu fosse conduzido, iria de cadeira de rodas. Era domingo, começo de tarde, que pareceu ser bem longo.

            Fiquei internado num grande hospital, na Av Paulista. Se não me engano haviam 8 UTIs, cada uma com capacidade para 10 a 15 pacientes, todas estavam lotadas. Algumas foram montadas às pressas, devido à demanda, segundo funcionários me relataram. E tudo isso era só para doentes de Covid.  Fiquei numa ala que era uma espécie de “triagem”, esperando vagar um leito na unidade intensiva. Devo ter ficado umas 3h esperando, nesse meio tempo minha mãe e irmão chegam. É difícil olhar para a mãe num momento desses, que visivelmente estava abalada, até mais do que eu, que poderia ter morrido.  Minha namorada só me relatava que estava em prantos. Amigos a todo minuto enviavam mensagens pelo celular. Na hora de ir para a UTI, foi mais difícil, porque minha mãe só poderia me acompanhar até determinado ponto. Choros a parte, um momento desses, de separação, só Freud explica.

            Fico numa ala improvisada, com mais 9 pacientes, todos separados por “cortinas” (ou algo do tipo). Parece um tanto precário eu relatando assim, mas era tudo extremamente bem equipado, com enfermeiros e médicos a todo momento. O primeiro médico vem me “recepcionar”, fala sobre meu estado, o que poderia acontecer, mas me tranquiliza porque, apesar da doença ter se espalhado muito, o quadro era instável e provavelmente de reversão.  Apesar do susto, tudo caminhava bem. Como eu estava consciente, permitiram que eu ficasse com o celular, o que foi muito bom, porque o tempo passou mais rápido. Na linha do “há males que vem para o bem”, nesse meio tempo falei com amigos que não conversávamos há mais de anos. Um reencontro “por motivos de força maior” que foi benéfico. Na segunda-feira à tarde retiraram o meu cateter nasal, pois minha saturação permanecia acima de 95. O médico da noite me disse que eu era o “melhorzinho” daquela ala. Realmente era verdade: nos dois dias que fiquei nessa UTI, não vi ninguém acordado. Como eu ia ao banheiro andando, tive como observar o entorno. E, sinceramente, é triste demais ver várias pessoas desacordadas, deitadas sobre as camas, esperando por melhoras. Espero que tenham conseguido se recuperar. Na terça-feira pela manhã, já com o quadro de saúde bem melhor, sou removido para um “quarto normal”. Era hora de abrir espaço para outro.

            Vou para o quarto, todos ficam aliviados. Passo o dia lendo, revezando o livro com a tevê. Na conversa com os funcionários, todos, dos faxineiros aos médicos, tiveram Covid. Alguns relataram sequelas, dos mais variados tipos: dores musculares, perda de memória, fraqueza, queda de cabelo (?!)… e a médica que me acompanhou nesse estágio da minha internação falou sobre as possibilidades que eu ainda poderia enfrentar.  Fico mais três dias internado, recebo alta na sexta-feira as 12h. Em poucos mais de 10 dias fui do 0 aos 50% do pulmão infectado, e voltei a quase zero. Que belo susto, regado a uma enxurrada de remédios! Doses intravenosas, injeções na barriga, capsulas, xaropes, de tudo um pouco.

            O pós-doença também é bem complicado. Fisioterapia muscular, muitos remédios para o sistema respiratório, efeitos colaterais, e mais alguns dias de molho. Uma semana depois de sair do hospital eu já estava de volta ao trabalho. Fui recuperando a velha forma aos poucos, tudo correu bem. Mas as notícias de novas perdas não paravam. Um tio, um primo do meu pai, um vizinho que vi crescer e aos 39 anos, sem comorbidades, todos foram levados pelo Covid. Aliás, essa estória de que as pessoas com comorbidade correm maior perigo é balela. Essa doença não tem padrão, todos estão em sua alça de mira. E por ser uma doença nova, ninguém sabe ainda o que pode nos reservar no futuro. Enfim, descobrimos o que é uma pandemia da pior forma: vivendo-a. Aos que sobreviveram, vacinem-se, lavem as mãos, abracem as pessoas queridas e cuidem-se.


SP/SP – 24/11/2021

André Braga

@ABPoeta


16/07/2015

Por uma única bandeira


Vejo várias bandeiras pelas ruas:
vermelhas, azuis, cores do arco-íris
agitadas por militantes, multidões
Populares, militares ou civis
muitas diferenças, ideias e razões

Me desculpe, meu amigo ou camarada
“entendo” a sua jornada
mas já não tenho mais idade
pra esse papo de “revolução”

Por que não nos damos às mãos
e juntos, em sociedade
não fazemos a cidade
para toda a população?

Os anos rebeldes passaram
Passaram até na televisão
Da rebeldia (e do tempo) juvenil
acredito que ficou uma lição:

“Longe vá temor servil”
como diz do hino, o refrão
que cantamos na escola
a contragosto, mas que sabemos agora
a diferença faz, ter uma única bandeira
desde os tempos das brincadeiras

Passamos a vida inteira brigando
Olhando para o próprio umbigo
Fazendo do amigo o inimigo
enquanto o inimigo
e o inimigo do inimigo
se juntam, se fazem amigos

E estão no poder!
E eleitos pelo direito!
E, doa a quem doer
querendo ou não
todos eles nos representam
como manda na Constituição

E é difícil mudar essa situação
porque de eleição em eleição
elegemos o ladrão, o ladrão
o ladrão do ladrão do ladrão
E ninguém merece perdão

No meio político, o que vale
é o toma lá dá cá, a negociata
E por mais que façamos passeatas
falta um discurso que nos iguale

Então por que não formamos
uma única nação, unidos pelo elo:
branco, azul, verde e amarelo
se brasileiro, todos somos?

A bandeira a ser empunhada
é aquela que foi hasteada
no pátio, dos tempos de criança
Tempos de escola e de esperança
em que se sonhava
com o futuro...

Hoje o dia a dia é duro
E muitas crianças da nossa pátria
ainda não sabem o que é escola
E, pior, só sabem o que é esmola

É preciso quebrar essa rima
Paradigma que nos assola
Enquanto houver essa sina
haverão muitas chacinas

porque criança fora da escola
é criança morta!
É juventude morta!
É futuro morto, o resto é lorota!

Chega de ser o país da bola
do carnaval, do samba no pé
dos patriotas em tempos de Copa
Valores que não nos trazem nada
além de um estereótipo vulgar

Quero que aqui seja outro lugar:
o país da ciência, da literatura
do Nobel, da tecnologia, dos esportes
da igualdade de oportunidades
O país do conhecimento...

Mas paro um momento e vejo
que não há outro jeito
de mudar a direção da nação
se não mandarmos as crianças
às escolas!
E não às celas, reformatórios
ou (pior) cadeias... Grades?
Só se forem as curriculares!

E que essas crianças
no intervalo das aulas
no pátio, após o recreio
cercadas de verde
sob o céu azul anil
hasteiem uma única bandeira
cantando em uníssono, o refrão:
“Pátria amada, Brasil!”

Mas até lá, para essa nação
que sonho, chegar
a nação de hoje
tem que se unir e lutar
por uma única bandeira:

a bandeira da educação




20/04/2015

colégios do paraíso


colégios no seio do paraíso
jardins juvenis floridos
com tudo que o diabo gosta
flores brancas com bicos rosa



18/05/2014

Artigo


Do público ao público: a colaboração via Internet como nova forma de produção e consumo de informação



From public to public: internet collaboration as a new way of production and information consumption


Resumo


            No decorrer da história da humanidade, a arte e o conhecimento sempre tiveram suas origens e disseminação em poder das grandes instituições. Nos dias atuais, com o advento e proliferação da Internet, esse cenário vem mudando radicalmente, através das mídias sociais, blogs e sites.    Com essa mudança, grupos de pessoas comuns com os mesmos interesses vêm juntando-se para criar redes culturais colaborativas: artistas em geral, revolucionários, filantropos, jornalistas independentes, todos os tipos de profissionais liberais, ninguém mais depende de um grande veículo ou de um patrocinador. A Internet deu acesso à produção de conteúdo midiático para pessoas tidas como amadoras, em contraponto aos profissionais do ramo. O objetivo deste artigo é entender como se constrói a rede colaborativa de troca de informação, analisando a importância da Internet aos grupos que se reúnem para produzir e propagar informação, arte e cultura. Como principal objeto de estudo, analisamos o caso do Instituto Mundo Mundano, uma rede colaborativa que há seis anos divulga arte, conhecimento e cultura.


Palavras-chave: Internet, Colaboração em Rede, Comunicação, Redes Sociais, Comunidade Virtual.


Abstract


            Throughout human history, art and knowledge have had their origins and power dissemination of large institutions. Nowadays, with the advent and Internet proliferation, this scenario have been changing radically through social media, blogs and websites. With this change, ordinary people groups with the same interests come joining to create cultural collaborative networks: artists in general, revolutionary, philanthropists, independent journalists , all kinds of professionals, no depends on a large vehicle or sponsor. The Internet has access to the production of media content to people seen as amateur as opposed to market industry. The purpose of this article is to understand how to build a collaborative network of exchange of information analyzing the importance of the Internet to groups that come together to produce and disseminate information , art and culture. As the main object of study analyzed the case of the Mundane’s World Institute, a collaborative network that publishes art, knowledge and culture by six years.


Keywords: Internet, Network Collaboration, Communication, Social Networks, Virtual Community.




18/03/2013

Direitos ou Deveres Humanos?

Direto: alguém espera que um
outro faça a ele.


Outro dia me deparei no Metrô/SP com esta campanha: Olhe ao Redor.

O adesivo estava logo acima do banco azul, o reservado. Qualquer um faz uma rápida associação: respeite este local, cumpra a lei, ceda o lugar...

A campanha, que propõe às pessoas a olharem ao seu redor, olhar com compaixão para o próximo, é dos governos estadual e municipal de São Paulo, para a promoção dos Direitos Humanos, ou algo assim.

Só que um detalhe me chamou a atenção: a frase diz “Respeito, também é Direitos Humanos”; fiquei na dúvida se respeito é direito ou dever. E pensando sobre, cheguei a conclusão de que respeito não pode ser um direito, deve ser um dever! Deveres Humanos, essa sim é a ideia.

Pense da seguinte maneira: respeito é um direito, ponto. Então saio eu de casa e exijo, porque eu tenho o direito, que as pessoas me tratem com respeito. Vendo por esse lado, todos têm que me tratar bem e todos esperam o mesmo dos outros, ou seja, ninguém faz nada por ninguém, a lei é sempre para que o outro cumpra-a. Acredito que por isso na sociedade impere o desrespeito.

Agora, se respeito fosse um dever: saio eu de casa sabendo que respeito é um dever, então trato bem as pessoas e, tendo a mesma noção que eu, as pessoas também me tratam com decência e aos outros também... Numa lógica espiral e simples, todos se respeitarão.

Isso está longe de acontecer, porque para que isso se torne real é preciso que se tenha o respeito como um valor humano, não como uma atitude que surge da obrigação de uma lei, de um direito que se tem sobre o outro.

Todos nós temos direitos, mas antes temos deveres e enquanto os direitos vierem antes dos deveres, será essa baderna, todo mundo achando que o outro é que tem que cumprir primeiro.

E que se cumpram os DEVERES HUMANOS.


Mais que um direito, respeito é um dever!

Igualdade não se faz com leis, se faz com educação.
Acessibilidade sim, se faz com leis, mas os empresários
estão cagando e andando para isso. Não
gastarão dinheiro para criar acesso a todos.

22/10/2012

O mau e velho “telefone sem fio”



Nem te conto...
   “Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida”.
    
Fiz uma pesquisa rápida na internet para saber quem é o autor dessa frase e, para minha não surpresa, um site mostra-a como de autor anônimo e outro como um provérbio chinês. Parei por aí. Com certeza existem outros sites que mostram essa mesma frase, mas com autorias diferentes. Ainda mais na era digital, onde tudo é reproduzido exaustivamente e sem o menor critério.

Acho que todo mundo sabe o que significa a expressão “telefone sem fio”: é quando algum acontecimento é relatado, quando a estória corre de boca em boca, e a cada vez que é recontada, ganha um novo detalhe, uma nova qualquer coisa, até que chega um momento em que o fato distorce de vez e, pior, vira verdade absoluta. E isso acontece porque não se costuma procurar fontes confiáveis, não se procura saber se os acontecimentos realmente aconteceram. Acredita-se na coisa do jeito que ela cai no colo. E as redes sociais, onde tudo se dissemina numa velocidade espantosa, vieram para ser uma extensão poderosa do “telefone sem fio”.

Nessa época de eleições aparecem montagens e mais montagens estampando as caras dos políticos mais notórios, dos que estão na moda, dos candidatos perpétuos. Cada um zoa o político que acredita ser “o corrupto”. Acho que por isso vemos montagens com todos eles.

Um chuchuzinho... no cu do
funcionalismo público. 
Uma montagem que me chamou a atenção foi essa ao lado, onde mostra a cara governador Alckmin e acima uma frase que, segundo a imagem, foi dita por tal político. Achei estranho não ter ouvido falar nada sobre isso, repercussão nenhuma disso. Está certo que os veículos de comunicação, principalmente os de São Paulo, protegem fortemente o PSDB e seu lobby empresarial, mas uma frase dessa não há amiguinho que a esconda. Os tucanos estão vendendo (dando) o patrimônio público faz tempo, estão botando na bunda do funcionário público, mas será que foi o geraldinho mesmo que disso isso?

Resolvi pesquisar na net se ele era mesmo o autor da frase. Para minha, novamente, não surpresa, descobri que não foi ele quem disse tamanha bobagem. A frase foi dita pelo governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), quando questionado sobre a greve dos professores em seu Estado, que já durava 24 dias (clique e leia). A frase é chocante e revela como os políticos, mais do que liberais, enxergam o patrimônio público. Triste.

Mas, não contente ainda com a descoberta, resolvi pesquisar mais um pouco e encontrei no YouTube a gravação em que ele diz, ao vivo, a famigerada frase, escute:



Agora: vendo a montagem feita com o governador Alckmin, lendo a matéria do governador Cid Gomes e ouvindo-o falar, pergunto: a primeira tem relação com a última? É dito a mesma coisa, ou será que há distorção? E o que o governador Cid Gomes disse, será que é tão absurdo assim?

Não voto em ninguém faz tempo, tenho repúdio pelo PSDB, que está liquidando o patrimônio público e detesto essa confusão ideológica que existe na política brasileira, onde o PSB (Partido Socialista Brasileiro) propaga ideias liberais.

Cid Gomes: peace and love
Faça amor, não faça fortuna.
O governador cearense tem certa razão em dizer que quem quer ganhar dinheiro, tem que ir para o setor privado, mas quando fala que quem está no setor público, tem que fazer o trabalho por amor, aí ele “força a barra”.

O “telefone sem fio” propagou a notícia, prejudicou ele, o governador geraldinho, e a quem leu também, porque se analisar cada mídia, vai perceber que cada um disse o que quis.

Procure sempre mais e mais fontes de informação, porque a verdade é só uma possibilidade.



Essa montagem apareceu na TL do meu Facebook hoje,
dia 12/09/13. As pessoas acreditam em qualquer coisa
que leem. Não fazem o mínimo esforço pra saber o que
é verdade ou não, no mundo das redes sociais.

11/11/2010

Samba da Taguá

Acabou a aula
Tá na hora de animar
Antes de ir embora
Eu desço pra Taguá

E lá eu entro no agito
A cerveja enche o copo – 2X
E a maconha é pirulito

Vamos lá galera
É hora de brindar
Levantar o copo
Vamos pra Taguá

E lá eu entro no agito
A cerveja enche o copo – 2X
E a maconha é pirulito

A vida é mesmo bela
Temos que aproveitar
Faculdade é o caralho
Nós vamos pra Taguá

E lá eu entro no agito
A cerveja enche o copo – 2X
E a maconha é pirulito

06/04/2010

Falar e escrever


Falar e escrever, coisas que parecem iguais, mas na realidade acontecem de formas bem diferentes. Dizem até que pensamos uma língua, falamos outra e escrevemos uma terceira. Isso fica muito evidente em algumas ocasiões. Quando candidatos a uma vaga de emprego ou vestibulandos se deparam com uma redação, geralmente o que se pensa e se fala muitas vezes não é o que vai para o papel. Isso decorre da falta de uma outra atividade correlacionada e importantíssima: ler. A leitura é a ponte entre o coloquial e o formal.

Nos dias de hoje a juventude está desenvolvendo cada vez mais uma linguagem própria: a internet com suas abreviações e as gírias, cada vez mais segmentadas por “tribos”. Isso pode ser prejudicial, caso o adolescente não tenha o hábito da leitura. Escrever uma simples frase, com sujeito e predicado, pode se tornar uma tarefa difícil.

O número de “best-selers” vendidos, aumenta a cada dia, o que é um bom sinal, pois demonstra que as pessoas estão lendo mais. Estórias de vampiros, lobisomens, magos, fábulas, estão preenchendo o imaginário da galerinha. O ruim disso é que a falta de consumo de uma literatura mais requintada, principalmente brasileira, faz com que esses “best-leitores” fiquem com um léxico limitado, e também deixam de conhecer uma boa parte da história do Brasil, retratada pelos escritores da época.

Com a globalização, cresceu o número de pessoas atrás de um curso de língua estrangeira. O bom e velho inglês, o espanhol, francês... o mandarim, que é a bola da vez, são cada vez mais falados. O contraditório disso é que nenhuma das línguas é estudada a fundo, nem a língua pátria. O Brasil está formando uma nação de poliglotas semi-analfabetos.

Acho ninguém fala corretamente o dia inteiro, é muito difícil, mas nem por isso podemos deixar de nos policiar e tentar falar da melhor forma possível. Enquanto a maioria achar que escrever é coisa que se faz só quando nos mandam, viveremos essa dualidade entre fala e escrita.

Os jovens lêem cada vez menos... será?



Há uma tese de que os jovem (generalizando) lêem cada vez menos, mas será que ela está correta? Hoje é cada vez mais comum ver um jovem com um livro nas mãos: Crepúsculo, A Cabana, estórias de vampiros, auto ajuda, Down Brown, Paulo Coelho, Zibia... Literatura pop difundida em massa. Fora as revistas especializadas nos mais diversos assuntos que angariam cada vez mais leitores segmentados. Por outro lado esse tipo de leitura afasta-os da literatura mais clássica, o que é ruim para todos: os professores que não conseguem fazer os alunos lerem livros mais clássicos; os alunos que acabam deixando de lado um rico conhecimento sobre a língua e a história do Brasil; para os autores que caem no esquecimento.
Os meios de comunicação agem como herói e vilão ao mesmo tempo nessa história: distraem a juventude com programas e séries de TV, rádio, mas através de revistas e jornais que pautam assuntos da “atualidade”, ou que listam rankings com os livros mais vendidos, criam um hábito de leitura no pessoal mais “novo”. Uma leitura que acontece pela identificação assunto/leitor. Apesar da falta de incentivo da leitura desde a infância, os jovens hoje lêem mais.
A pergunta da tese tem que ser reformulada: Os jovens hoje lêem mais, mas será que vale a pena ler o que eles lêem?